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sábado, 26 de abril de 2008

25 de Abril...34 anos depois.



O 25 de Abril de 1974 continua a dividir a sociedade portuguesa, sobretudo nos estratos mais velhos da população que viveram os acontecimentos, nas facções extremas do espectro político e nas pessoas politicamente mais empenhadas. A análise que se segue refere-se apenas às divisões entre estes estratos sociais.

Existem actualmente dois pontos de vista dominantes na sociedade portuguesa em relação ao 25 de Abril.

Quase todos reconhecem, de uma forma ou de outra, que o 25 de Abril representou um grande salto no desenvolvimento politico-social do país. Mas as pessoas mais à esquerda do espectro político tendem a pensar que o espírito inicial da revolução se perdeu. O PCP lamenta que a revolução não tenha ido mais longe e que muitas das conquistas da revolução se foram perdendo.

As pessoas mais à direita lamentam a forma como a descolonização foi feita e as nacionalizações feitas no periodo imediato ao 25 de Abril de 74 que condicioram sobremaneira o crescimento de uma economia já então fraca.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Biografia de SALGUEIRO MAIA


Salgueiro Maia, como se tornou conhecido, foi um dos distintos capitães do Exército Português que liderou as forças revolucionárias durante a Revolução dos Cravos. Filho de Francisco da Luz Maia, ferroviário, e de Francisca Silvéria Salgueiro, frequentou a escola primária em São Torcato, Coruche, mudando-se mais tarde para Tomar, vindo a concluír o ensino secundário no Liceu Nacional de Leiria. Licenciou-se em Ciências Sociais e Políticas e em Ciências Etnológicas e Antropológicas.

Em Outubro de 1964, ingressa na Academia Militar, em Lisboa e, dois anos depois, apresenta-se na Escola Prática de Cavalaria (EPC), em Santarém, para frequentar o tirocínio. Em 1968 é integrado na 9ª Companhia de Comandos, e parte para o Norte de Moçambique, em plena Guerra Colonial, cuja participação lhe valeu a promoção a Capitão, já em 1970. A Julho do ano seguinte, embarca para a Guiné, só regressando a Portugal em 1973, onde seria colocado na EPC.

Por esta altura iniciam-se as reuniões clandestinas do Movimento das Forças Armadas e, Salgueiro Maia, como Delegado de Cavalaria, integra a Comissão Coordenadora do Movimento. Depois do 16 de Março de 1974 e do «Levantamento das Caldas», foi Salgueiro Maia, a 25 de Abril desse ano, quem comandou a coluna de carros de combate que, vinda de Santarém, montou cerco aos ministérios do Terreiro do Paço forçando, já no final da tarde, a rendição de Marcello Caetano, no Quartel do Carmo, que entregou a pasta do governo a António de Spínola. Salgueiro Maia escoltou Marcello Caetano ao avião que o transportaria para o exílio no Brasil.

A 25 de Novembro de 1975 sai da EPC, comandando um grupo de carros às ordens do Presidente da República. Será transferido para os Açores, só voltando a Santarém em 1979, onde ficou a comandar o Presídio Militar de Santa Margarida. Em 1984 regressa à EPC.

Em 1983 recebe a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, em 1992, a título póstumo, o grau de Grande Oficial da Ordem da Torre e Espada e em 2007 a Medalha de Ouro de Santarém.

Em 1989 foi-lhe diagnosticada uma doença cancerosa que, apesar das intervenções cirúrgicas no ano seguinte e em 1991, o vitimaria a 4 de Abril de 1992.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Teatro - 25 de Abril, 34 anos depois.

No dia 23 de Abril, irá realizar-se uma Peça de Teatro, com o nome de "25 de Abril, 34 anos depois", pela Nova Oficina de Teatro e Coral de Lousada.
Encenação: Capitolina Oliveira

Às 21h30, no Auditório Municial de Lousada


Contamos com a sua presença.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Vampiros



No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vêm em bandos
Com pés de veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem Amtudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas

São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Eles comem tudo
E não deixam nada

No chão do medo
tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada

Eles comem tudo
E não deixam nada

Zeca Afonso

A Esperança


Foram dias,
foram anos
a esperar por um só dia.
Alegrias.
Desenganos.
Foi o tempo que doía
com seus riscos e seus danos.
Foi a noite e foi o dia
na esperança de um só dia.

Manuel Alegre com adpt. de CravosRevolucionarios

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Assinalar a Revolução de Abril na nossa Escola


No âmbito da disciplina de História iremos assinalar a Revolução do 25 de Abril na nossa Escola - Escola Secundária de Lousada - (no decorrer da semana de 21 a 25 de Abril) não só através dos alunos, mas também, da comunidade escolar. Onde virão, nessa semana, ex-combatentes da guerra Colonial, dar o seu testemunho.
Um dos projectos visa estabelecer diferenças fundamentais entre a época vivida antes e após a Revolução.
Os alunos através da família, rede de amigos e entidades locais poderão enriquecer o conhecimento da História Local, conhecer melhor a própria família e descobrir nesta gentes/protagonistas de um período que marcou definitivamente a identidade nacional. Participar, como agentes que somos da nossa História Contemporânea, ajudando as gerações mais novas a compreender essa realidade através de testemunhos vivos.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Movimento das Forças Armadas



A contestação dos capitães levou à criação do MFA (Movimento das Forças Armadas), que percebeu que só acabaria com a guerra colonial se derrubasse o regime que a sustentava.
A operação que acabaria na Revolução dos Cravos passou por momentos de grande tensão desde a primeira reunião em Bissau, a 21 de Agosto de 1973, até ao derradeiro encontro dos operacionais no Posto de Comando no dia 24 de Abril de 1974.
Assim se começou a preparar a queda da Ditadura instaurada em 1926.



21 de Janeiro de 1973
Manifestações anticoloniais em Lisboa.


Maio de 1973
Protesto dos militares à tentativa de apoio das Forças Armadas ao Governo por parte do Congresso dos Combatentes a realizar de 1 a 3 de Junho.


1 de Junho de 1973
Início do I Congresso dos Combatentes do Ultramar, no Porto, que mereceu a oposição do "Movimento dos Capitães". Ao mesmo tempo, circula um manifesto de Oficiais do Exército contra o Congresso e a legislação que pretende apoiar.


13 de Julho de 1973
Publicação do Decreto-Lei n.º 353/73, que possibilitava aos milicianos do Quadro Especial de Oficiais ultrapassarem os capitães do quadro permanente nas suas promoções, mediante a frequência de um curso intensivo na Academia Militar, equiparado aos cursos normais, o que originou viva contestação dos capitães do quadro permanente.


20 de Agosto de 1973
Publicação do Decreto-Lei n.º 409/73, que dá nova redacção ao 353/73 mas mantém a situação dos capitães do quadro permanente.


21 de Agosto de 1973
Primeira reunião clandestina de capitães em Bissau.


28 de Agosto de 1973
Eleição da primeira comissão do "Movimento dos Capitães", constituída pelos Capitães Almeida Coimbra, Matos Gomes, Duran Clemente e António Caetano.


9 de Setembro de 1973
Nasce o MFA na primeira reunião plenária (clandestina) dos capitães, no Monte Sobral em Alcáçovas, com a presença de 95 Capitães, 39 Tenentes e 2 Alferes.


24 de Setembro de 1973
A Guiné-Bissau proclama unilateralmente a independência.


6 de Outubro de 1973
Reunião quadripartida do MFA (por razões de segurança), sendo um dos locais a casa do Capitão Antero Ribeiro da Silva, no n.º 24, 2º Dto da rua Prof. Dr. Augusto Abreu Lopes, em Odivelas.


12 de Outubro de 1973
O Ministro do Exército e da Defesa Nacional, Sá Viana Rebelo, suspende os Decretos-Lei n.º 353/73 e 409/73, o que não evita a crescente contestação dos capitães.


23 de Outubro de 1973
Circular clandestina onde se faz o ponto da situação.


26 de Outubro de 1973
Reconhecimento da Guiné Bissau como estado soberano pela ONU.


28 de Outubro de 1973
Eleição de deputados à Assembleia Nacional. A oposição desiste antes do acto eleitoral, devido à inexistência de garantias mínimas de seriedade.


7 de Novembro de 1973
Demissão do Ministro Sá Viana Rebelo, na sequência da contestação do "Movimento dos Capitães" aos referidos decretos.


24 de Novembro de 1973
Reunião plenária, na Parede, onde o Tenente-Coronel Banazol defende, pela primeira vez, a tese de golpe militar, que transita para discussão em próxima reunião.


Dezembro de 1973
Denúncia pelo Major Carlos Fabião, numa aula de Instituto de Altos Estudos Militares, de um golpe de estado de direita em preparação, que seria conduzido por Kaúlza de Arriaga.


1 de Dezembro de 1973
Reunião plenária em Óbidos, onde se votam três teses alternativas:
golpe militar;
continuação da luta contra os Decretos 353/73 e 409/73 com perspectivas de passar a golpe militar;
continuação da luta legalista contra os Decretos.
É aprovada a última tese, mas a primeira que fala de um golpe militar ganha apoios, perspectivando-se o carácter revolucionário do "Movimento" e elege-se a primeira Comissão Coordenadora do "Movimento dos Capitães" constituída por 19 oficiais e escolhidos os Generais Costa Gomes e António de Spínola para servirem de ligação.


5 de Dezembro de 1973
Reunião da Comissão Coordenadora na Costa da Caparica, onde se rejeita a tese do Tenente-Coronel Banazol e onde se elege um executivo do "Movimento", constituído pelos Majores Otelo Saraiva de Carvalho e Vítor Alves e o Capitão Vasco Lourenço. É criado um grupo de trabalho para elaborar o Programa do MFA, coordenado pelo Major Melo Antunes e constituído pelos:
Tenentes-Coronéis Lopes Pires, Franco Charais e Costa Brás,
Major Hugo dos Santos e Coronel Vasco Gonçalves (do Exército),
Capitão-Tenente Victor Crespo,
1º Tenente Almada Contreiras (da Marinha),
Majores Morais e Silva e Seabra e o Capitão Pereira Pinto (da Força Aérea).



22 de Fevereiro de 1974
Publicação do livro "Portugal e o Futuro", do General António de Spínola, que abalou o regime e, em particular, Marcelo Caetano.


5 de Março de 1974
Reunião de cerca de 200 oficiais dos três ramos das Forças Armadas, em Cascais, no atelier do arq. Braula Reis. Pela primeira vez se fala na possibilidade do fim da guerra colonial e no derrube a ditadura para o estabelecimento de um regime democrático. É aprovado o documento «O "Movimento" as Forças Armadas e a Nação», apresentado pelo Major Melo Antunes.


8 de Março de 1974
O Governo transfere os Capitães Vasco Lourenço e Carlos Clemente para os Açores, Antero Ribeiro da Silva para a Madeira e David Martelo para Bragança, com o objectivo de enfraquecer o "Movimento dos Capitães". O Capitão Clemente é levado à força para o Aeroporto, mas o "Movimento" rapta os Capitães Vasco Lourenço e Ribeiro da Silva e esconde-os.


9 de Março de 1974
Os Capitães Vasco Lourenço e Ribeiro da Silva apresentam-se voluntariamente no Quartel General da Região Militar de Lisboa, na companhia do Capitão Pinto Soares, sendo os três detidos e enviados para a Casa Reclusão da Trafaria.


11 de Março de 1974
Marcelo Caetano, em carta a Américo Tomás, pede a demissão, por se sentir responsável pela publicação do livro de Spínola, mas não é aceite.


14 de Março de 1974
Marcelo Caetano recebe Oficiais-Generais dos três ramos das Forças Armadas, numa reunião que ficou conhecida como a "Brigada do Reumático", no intuito de tentar provar que o regime tinha tudo sob controlo.
Discurso de Marcelo Caetano a 14 de Março de 1974 aos oficiais leais ao governo.



15 de Março de 1974
Demissão dos Generais Costa Gomes e António de Spínola por se terem recusado a participar na "Brigada do Reumático".


16 de Março de 1974
Tentativa de golpe militar contra o regime. Só o Regimento de Infantaria 5 das Caldas da Rainha marcha sobre Lisboa. O golpe falhou. São presos cerca de 200 militares, alguns deles decisivamente envolvidos na preparação da "Revolução dos Cravos".
A saída em falso do Reg. das Caldas da Rainha a 16 de Março de 1974, como reacção à demissão de Costa Gomes e de Spínola, constituiu o ensaio militar do dia 25 de Abril.


24 de Março de 1974
Última reunião clandestina da Comissão Coordenadora do MFA, em casa do Capitão Candeias Valente, na qual foi decidido o derrube do regime e o golpe militar entre 22 e 29 de Abril. O Major Otelo Saraiva de Carvalho fica responsável pelo "Plano Geral das Operações".



28 de Março de 1974
Última "Conversa em Família" de Marcelo Caetano na RTP.



21 de Abril de 1974
Aprovação da versão definitiva do Programa do MFA.


22 de Abril de 1974
Está pronto o "Plano Geral das Operações: Viragem Histórica" e as Unidades Militares afectas ao MFA ficam à espera do início do golpe militar. Por decisão de Otelo é escolhido o Regimento de Engenharia N.º 1 na Pontinha, para instalar o Posto de Comando das operações.



23 de Abril de 1974
Otelo Saraiva de Carvalho comunica que as operações militares se iniciariam às 03.00h do dia 25 de Abril e entrega, a capitães mensageiros, sobrescritos fechados contendo as instruções para as acções a desencadear na noite de 24 para 25, com a senha "Coragem" e contra-senha "Pela Vitória" e um exemplar do jornal Época, como identificação, para as Unidades participantes.



24 de Abril de 1974
O jornal República, em breve notícia, chama a atenção dos seus leitores para a emissão do programa "Limite" dessa noite, na Rádio Renascença.


24 de Abril de 1974 às 21:00
Otelo Saraiva de Carvalho faz chegar ao General Spínola a "Proclamação ao País do Movimento das Forças Armadas Portuguesas".



24 de Abril de 1974 às 22:00
Começam a reunir-se os elementos do MFA no Posto de Comando, instalado no Regimento de Engenharia N.º 1, na Pontinha: os Tenentes-Coronéis Lopes Pires e Garcia dos Santos, os Majores Otelo Saraiva de Carvalho, Sanches Osório e Hugo dos Santos, o Capitão-Tenente Victor Crespo e o Capitão Luís Macedo.


24 de Abril de 1974 às 22:55
Os Emissores Associados de Lisboa transmitem a canção "E Depois do Adeus", de Paulo de Carvalho, primeiro sinal do MFA, confirmando que tudo corria bem.

E depois do Adeus


E depois do Adeus foi a canção que serviu de senha de início da revolução de 25 de Abril de 1974. Com letra de José Niza e música de José Calvário a canção foi escrita para ser interpretada por Paulo de Carvalho na 12ª edição do Festival RTP da Canção, do qual tinha saido vencedora pouco tempo antes.

Com a transmissão de E depois do adeus, pelo Emissores Associados de Lisboa às 22h55m do dia 24 de Abril de 1974, era dada a ordem de partida para a saída dos quartéis.


Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.

Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder

Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci

E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei...

E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós

Grândola, Vila Morena


Grândola, vila morena foi composta como homenagem à "Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense", onde no dia 17 de Maio de 1964, José Afonso fez uma actuação. É nessa actuação que o cantor conhece o guitarrista Carlos Paredes, ficando impressionado com "o que esse bicho faz da guitarra!" (expressão do próprio José Afonso numa carta aos pais).

José Afonso fica também impressionado com a colectividade: um "local obscuro, quase sem estruturas nenhumas, com uma biblioteca com claros objectivos revolucionários, uma disciplina generalizada e aceite entre todos os membros, o que revelava já uma grande consciência e maturidade políticas".

Esta canção tornar-se-á famosa ao ser escolhida como senha para a revolução do 25 de Abril. Houve duas senhas. A primeira, às 23h, foi a música "E depois do adeus", de Paulo de Carvalho. Grândola, que foi a segunda, passou no programa "Limite" da Rádio Renascença às 0.20h do dia 25. Foi o sinal para o arranque das tropas mais afastadas de Lisboa e a confirmação de que a revolução ganhava terreno.





Grândola vila morena

Terra da fraternidade

O povo é quem mais ordena

Dentro de ti ó cidade

(...)

Em cada esquina um amigo

Em cada rosto igualdade

Grândola vila morena

Terra da fraternidade

(...)

À sombra duma azinheira

Que já não sabia a idade

Jurei ter por companheira

Grândola a tua vontade

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Trova do vento que passa





Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.


Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de sevidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre